A revolução de Marcello Leite Barbosa no mercado financeiro

Marcello transformou-se em personagem lendário e um dos mais marcantes do mercado brasileiro de capitais. Mas viu todo seu império despencar.

Corretores de fundos públicos. Assim eram chamadas as pessoas que recebiam autorização – por decreto presidencial – para intermediar negócios na bolsa de valores, no câmbio ou com títulos emitidos pelo governo no passado. Na extinta bolsa de valores do Rio de Janeiro – até a primeira metade dos anos 1960 – havia apenas 40 desses corretores. Dentre eles, estava Marcello Leite Barbosa.

Marcello transformou-se em personagem lendário e um dos mais marcantes do mercado brasileiro de capitais. A célebre corretora criada por ele – a M. Marcello Leite Barbosa – revolucionou o mercado financeiro brasileiro e foi líder em um dos momentos mais eufóricos e dramáticos de toda história da bolsa. Marcello comandava a maior corretora do país em um período em que o índice da Bolsa do Rio subiu mais de 400% em seis meses. Mas viu todo seu império despencar.

Ele foi também o ponto de partida para a criação de diversas outras corretoras e bancos de investimento que se tornaram emblemáticos a partir da década de 70. Nomes como Marcel Telles, Salvatore Cacciola, Fabio Nahoum e Marcio Noronha fizeram parte da história da M. Marcello e dali partiram para fundar bancos de investimento como o Libra, Multiplic, Marka, Vetor e Ômega.

A Vovó de Faria Lima

A decada de 30 e suas crises.

O avô de Marcello, Alfredo Dutra, foi um rico fazendeiro do interior do Ceará. Por lá foi um político de destaque e chegou até ser prefeito. A segunda e a terceira geração da família Dutra Leite não foram as mais ricas do Estado, mas não vivam mal. Na década de 30, haviam poucas oportunidades no Brasil. A economia mundial estava saindo de uma depressão colossal, que levará o país a passar por uma reviravolta política e na própria economia.

Com a perda do pai, em 1930, que já não estava tão bem de vida quanto o avô, Marcello e seu irmão mais velho – João Alberto – decidiram se aventurar e migrar para o Rio de Janeiro para procurar novos caminhos. Os irmãos arrumaram um emprego em uma conhecida loja da época: A Exposição – que ficava no largo carioca, bem no centro comercial da cidade.

João tinha apenas 14 anos quando saiu do Ceará. Marcello era ainda mais novo. Quando ambos conseguiram se estabelecer financeiramente, trouxeram à cidade a mãe, dona Cleonice, e os outros três irmãos. Em 1934, Marcello arranjou um emprego no escritório de uma corretora. Começou no mercado de capitais como auxiliar do corretor Silva Resende.

Logo de início, o jovem rapaz ficou impressionado com o que estava aprendendo. E como ele mesmo contou em uma entrevista anos antes de falecer, na Bolsa, ele encontrou a sua vocação. Nove anos mais tarde, em 1943, ele estava montando seu primeiro negócio, independente, como adjunto de corretor.

Marcello estava certo de seu destino e começou a adquirir uma posição destacada no mercado. Ele era um zangão do câmbio.

Zangão era uma denominação da época para os corretores que ficavam voando em torno do pregão. Ou seja, um operador que além de atuar para seus clientes, também fazia compra e venda para sua própria conta. Obviamente que Marcello se dava muito bem nisso – aproveitando a informação que tinha acesso por ficar circulando entre os vários investidores. O câmbio, naquela época, era a grande fonte de renda dos corretores que operavam.

Notícia do final do guerra.

O contexto da Segunda Guerra Mundial, latente no período, trazia dificuldades para a importação – o que fez o Brasil acumular reservas cambiais razoáveis. Mas com o fim do conflito, em 1945, o comércio exterior ganhou um novo impulso e as amarras do câmbio foram levemente afrouxadas, para escorrer o capital preso no país. Esse foi um cenário perfeito para o crescimento do jovem Marcello.

Mercado de Câmbio

No dia 13 de março de 1952, Marcello Leite Barbosa foi finalmente nomeado corretor de fundos públicos por decreto do então presidente Getúlio Vargas. Nesse ponto, ele já tinha bons clientes para suas operações de câmbio. Já casado e com filhos, Marcello vivia uma vida confortável.

Colégio Santo Agostinho, no Leblon.

Seus filhos estudavam em colégios tradicionais do Rio de Janeiro – como colégio Santo Agostinho, no Leblon. Nos anos 1950, com uma indústria automobilística brasileira praticamente inexistente, os Leite Barbosa tinham um Oldsmobile conversível, que Sylvia – esposa de Marcello – dirigia. Uma das grandes amizades que ajudou Marcello a circular no mundo empresarial da época foi Orlando Soares – pai do icônico apresentador de TV Jô Soares.

Mas foi o seu irmão – João Alberto – que o aproximou do local onde Marcello fez as melhores conexões para seus negócios na bolsa: o Country Club do Rio de Janeiro. Tomar um uísque no bar do Country Club em Ipanema, entre 18h e 20h, era quase que um programa obrigatório entre os homens ligados à nata empresarial do Rio. Assim, ambos, João Alberto e Marcello, adquiriram títulos e passaram a frequentar o clube.

Na verdade, naquela época, a corretora trabalhava como uma espécie de cartório. Carimbava os documentos que resultariam no fechamento de câmbio. Mas pra isso era preciso ter boas conexões com quem precisava levar o dinheiro para fora. Mercado, propriamente dito e como conhecemos hoje, não existia. E foi por esse motivo que Marcello começou a voltar seus olhos para sua grande paixão no mundo dos negócios: o mercado de ações. Uma paixão tão grande que, segundo relatos de seus familiares, ele costumava dizer a propósito de qualquer tema: “Melhor que isso, só a bolsa em alta”.

A Ascensão de Marcello

Propagandas do governo.

Entre as décadas de 1960 e 1970, o Brasil passava pelo período conhecido como milagre econômico. Com crescimento superior a 10% ao ano e uma dependência menor da exportação do café, o país subiu da 50ª para a 16ª posição do ranking de economia mundial. A maior parte desse período, o Brasil era governado por presidentes eleitos indiretamente –  todos oficiais generais do exército.

Avesso a qualquer tipo de crítica e impondo censura à imprensa na maior parte do tempo, o regime militar suprimiu direitos civis básicos. Mas foi um contexto importante para entender o ambiente pelo qual o poder da corretora de Marcello Leite Barbosa começou a crescer exponencialmente, até entrar em declínio no início dos anos 1970. No período, duas figuras do governo foram importantes para o impulsionamento do mercado de ativos: Octávio Gouvêa de Bulhões, à frente do Ministério da Fazenda, e Roberto de Oliveira Campos, no Ministério do Planejamento.

Bulhões e Campos eram entusiastas do mercado de capitais e estipularam, na época, que a compra de ações poderia servir como dedução de parte do Imposto de Renda devido pelos contribuintes. Também são eles os responsáveis pela Lei do Mercado de Capitais – que estipulou que as transações deveriam ser intermediadas por instituições financeiras especializadas: as sociedades corretoras. Essas instituições só poderiam operar com cartas patentes concedidas pelo recém criado Banco Central.

Gordon, Castelo Branco, Bulhões e Campos, respectivamente.

A dupla Bulhões-Campos via o mercado de capitais como um instrumento essencial para financiar o desenvolvimento do país. O governo buscava atrair investidores para o mercado de ações por meio de fundos: os fundos 157, decretados pela Lei n° 157 de fevereiro de 1967. Até 12% do Imposto de Renda devido poderiam ser aplicados em cotas desses fundos.

A escolha era registrada no próprio formulário no qual o contribuinte declarava seu IR. Por isso, os bancos disputavam assiduamente quem recebia as declarações, já que aumentavam suas chances de captar recursos. Marcello foi um dos primeiros a enxergar uma oportunidade nesse novo cenário. E dentre as corretoras que existiam na época, a Marcello Leite Barbosa teve um dos fundos mais bem-sucedidos, o fundo MM.

A Corretora Marcello Leite Barbosa

Notícias veiculavam sobre o fundo MM.

Além do fundo MM, Marcello foi responsável por criar o Plano de Investimento Mensal (PIM), pelo qual o cliente poderia fazer uma programação, poupando a cada mês certa quantia para investir em ações.

Marcello estava convencido que chegará a hora de popularizar o mercado de ações. Simultaneamente à conquista de clientes, a corretora se empenhava fortemente no processo de abertura de capital com o lançamento de ações.

Em pouco tempo, a incipiente Bolsa de Valores do Rio de Janeiro passou de 26 para 100 ações listadas. A M. Marcello Leite Barbosa participaria, até como agente financeiro principal, de lançamentos de grupos empresariais como Zivi Hercules, Siderúrgica Riograndense, Sondotécnica, Café Solúvel Brasil e Unipar.

Para lançar as ações, a M. Marcello tinha um departamento técnico para avaliar os dados das empresas. E ela foi pioneira nesse sentido. Os investidores eram ávidos pelos lançamentos, na expectativa de lucrar rios de dinheiro na passagem do mercado primário para o secundário. De outro lado, havia até empresas sem dar lucro há anos, como a Acesita que produzia aços inoxidáveis – que se destacavam entre as maiores altas do mercado.

BOVESPA, cerca anos 60.

O mercado só queria saber da valorização das ações da bolsa e no curtíssimo prazo. A corretora ganhou projeção e alcançou um tamanho colossal para a época, chegando  a ter 15 lojas e 58 mil clientes. O que a M. Marcello Leite Barbosa fazia acabava servindo de referência para as demais. Em volume de negócios, todas estavam distantes dela. Vale ressaltar, que o mercado ainda não tinha um regulador especializado. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) só foi criada oficialmente em 1977.

O mercado dependia basicamente da autorregulação. E com pouquíssimos controles, isso poderia ser muito perigoso. Os corretores estavam mais preocupados em ganhar dinheiro do que qualquer outra coisa. Foi nessa época que uma história folclórica do mercado de capitais brasileiros nasceu. Em meio a esse ambiente de agitação, surgiu o boato do lançamento de uma nova empresa: a Merposa. Rapidamente, como era de costume, uma legião de investidores se candidatou a subscrever o novo papel.

Só que Merposa não passava de uma sigla que significava “merda em pó S.A”. Isso mesmo, tudo não passava de uma grande invenção. A história escancarou que haviam grandes problemas ali. E a ultra especulação, somada à pouca regulação, resultou no hoje óbvio crash de mercado.

O Início da Queda

Propagandas visando a população feminina.

A rápida expansão do mercado acionário havia aproximado dele poupadores diretos, pessoas físicas e instituições. Era um fenômeno novo em um país que ainda era predominantemente agrário, mas que enfrentava uma industrialização acelerada pelo boom econômico. No início dos anos 1970, a economia do Brasil crescia 12% ao ano e o otimismo tomava conta de todos. O ambiente das bolsas brasileiras era simplesmente eufórico.

Em meio a esse cenário, o ritmo de organização interna da corretora de Marcello não conseguia acompanhar o ritmo de seus negócios. Os procedimentos eram rudimentares. Cada cliente possuía uma pasta, na qual as ações eram guardadas. Haviam as ações nominativas – com a identificação do acionista – e as ações ao portador. Durante esse período de euforia, entre 1970 e 1971, as transferências de papéis poderiam demorar até nove meses para serem efetivadas.

Falhas acidentais ou até mesmo intencionais passavam despercebidas. A custódia dos papéis representativos das ações era efetuada fisicamente em cofres, o que criava muita fragilidade no sistema devido ao tempo de processamento desses papéis. Embora a M. Marcello Leite Barbosa tivesse sido inovadora em tudo, a custódia era o calcanhar de Aquiles.

Excerto da Folha de S. Paulo falando sobre o mercado de ações.

Até meados de 1971, o mercado seguiu com forte alta e já começava a incomodar outros segmentos do mercado financeiro, especialmente as chamadas financeiras. As financeiras eram instituições responsáveis pelo crédito direto ao consumidor e pelo refinanciamento do crediário de diversas lojas. A captação de recursos dessas instituições era feita por meio de letras de câmbio – títulos de renda fixa – que lastreavam as operações de crédito.

Com o mercado de ações em alta, os investidores não queriam saber desses títulos. Consequentemente, não havia dinheiro para emprestar às empresas ou financiá-las. E o governo começou a se incomodar com esse desequilíbrio Com pressões vindas de todos os lados, em especial do Banco Central, a Bolsa do Rio passou a adotar medidas mais restritivas.

Elas foram anunciadas pelo coronel Hugo Coelho, que declarou as seguintes palavras em uma coletiva: “O Mercado está histérico e irracional”. A frase foi replicada em quase todos os jornais do país e a repercussão foi rápida e intensa. E agora vem o agravamento.

Grandes investidores da época.

Grandes investidores, mais sofisticados e profissionais, estavam altamente alavancados no que se conhece como “mercado a termo”. A coisa funcionava basicamente da seguinte maneira: certo de uma valorização de suas ações, os investidores investiam mais do que desembolsavam no primeiro momento, mas com um compromisso de acertar as contas posteriormente, contando com o próprio lucro obtido na valorização dos papéis.

Um exemplo: ao invés de comprar R$ 100 mil de uma ação a vista, o investidor comprava R$ 500 mil reais no mercado a termo, dando R$ 100 mil de entrada e liquidando o restante no futuro com o lucro da valorização da ação que ele investiu.

Isso é tudo muito bonito quando o mercado está subindo e as ações se valorizando, não é verdade? Mas com um mercado em baixa, você pode imaginar que essa conta fica muito cara. E foi exatamente o que aconteceu.

O Crash

BOVESPA, circa 1960.

O dia 14 de Junho de 1971 foi o início da derrocada – Nesse dia, o IBV, índice da bolsa do Rio, alcançou seu patamar máximo desde que tinha se iniciado o processo de alta – quase ininterrupto – desde 1970. Dali pra frente, o mercado simplesmente derreteu. A bolha havia estourado. Reinava o Caos. A Bolsa do Rio decidiu suspender o pregão por um dia na semana para que as corretoras começassem a organizar as montanhas de papéis desaparecidos nas seções de custódia.

Havia uma forte pressão do governo para enrijecer os controles que, no plano político, também endureceu ainda mais o regime militar. Com as tensões se acumulando, o governo aparentemente formou a ideia de complô para derrubar as ações e prejudicar a equipe econômica liderada por Delfim Neto. Na ocasião, a ideia implantada foi de que a queda repentina das ações havia sido arquitetada por Marcello, que era também presidente da Bolsa do Rio.

No curto prazo, o mercado não dava nenhum sinal de reação. Muitos clientes que receberam créditos da corretora para comprar ações, não assumiam suas dívidas e ficavam inadimplentes simplesmente. Quem perdeu dinheiro pôs a culpa na corretora. Com os compromissos assumidos e a queda da Bolsa, a corretora começou a registrar desequilíbrios financeiros. No crash, a Marcello estava alavancada em 30 vezes o seu patrimônio

Notícia veiculado falando sobre os erros da corretora.

A situação era preocupante. A gigante do mercado financeiro se viu obrigada a fechar a maioria de suas lojas e a restringir crédito. Em poucos meses, a M. Marcello Leite Barbosa deixaria o topo das instituições financeiras do país e a liderança entre as corretoras. Marcello e Mauricio foram impedidos legalmente pelo Banco Central de se envolver diretamente no negócio.

Como estava tudo em ordem, a corretora em São Paulo, credora da corretora do Rio, ficou fora da intervenção do Banco Central. Mas passou a ser alvo de pressão para que ela fosse vendida. A M. Marcello enfrentaria vários processos envolvendo a Receita Federal. Ao todo, foram doze anos de tramitação de processos. O mercado só viria a reagir de fato em 1979, dois anos após a morte prematura de Marcello Leite Barbosa.

Desde que a bolha estourou, em 1970 e 71, o mercado viveria o restante da década andando de lado. Até hoje, não se tem uma teoria completa para explicar o porquê bolhas se formam no mercado financeiro, e como ou quando elas estouram.

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